sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Deus como forma de si e além de si.



O que ou quem é o Deus cristão? Um senhor de barbas longas, todo poderoso, todo benevolente e que sabe quem tão as boas e as más pessoas? Sinto informar que este é o Papai Noel. Uma representação metafísica de tudo aquilo que é bom, justo, honesto, amoroso, mas que te manda para o inferno se não for amado de volta? Um tanto quanto infantil esse conceito de Deus. Então vamos deixar um pouco de lado essas visões distorcidas de Deus e vamos examinar livre do escopo da religião a origem do nascimento do divino dentro do conceito humano.
Em primeiro lugar: se existe em algum lugar um deus metafísico, a razão humana ainda não está pronta para entendê-lo em sua infinita forma. Religiões nasceram e morreram em toda e qualquer localidade do mundo onde o homem tenha se estabelecido, em muitas delas, deus é figura metafísica, inatingível, inalcançável, ininteligível para a maioria dos humanos, salvo raras exceções, como por exemplo, na passagem em que o Moisés bíblico pode ouvir a revelação divina de modo direto, em outras sociedades tivemos o deus físico, como os deuses helênicos que diversas vezes apreciavam interagir com os mortais, criando meio-deuses, bestas e feras a partir dessas interações. Entre as sociedades onde deus não se manifesta diretamente, temos diferenças nos modos que se entendem os mesmos, por exemplo, o deus judaico é o deus do povo escolhido, é claramente um deus restritivo e severo, entretanto o deus cristão é o deus do amor, redenção e privação, apesar dos mesmos possuírem raízes em comum (o próprio povo cristão é descendente do povo judeu, a cisão se dá no momento da vinda de Jesus, onde o povo judaico não aceitou que seu rei encarnasse na forma de um aldeão, desse ponto em diante Jesus é o rei apenas do ponto de vista dos humildes, enquanto os judeus ainda esperam por seu rei), demonstrando que o deus metafísico não foi entendido por completo, seja pela razão, seja pela fé, logo, a razão humana ainda não é capaz de o entender caso o mesmo exista ou em um olhar mais pessimista poderíamos afirmar que a razão humana jamais vai ser capaz de entender um conceito metafísico tão abstrato quanto deus pode vir a ser. Se pensarmos nas religiões holísticas como o xamanismo, o neo-paganismo, helenismo (no caso do mito de Gaia, onde a mesma é a Terra em si) e demais frutos da filosofia Celta (povo que viveu em diferentes tribos no leste europeu aproximadamente no século VI a.C segundo o historiador grego Hecateu de Mileto em trechos de sua obra, a qual só restaram poucos fragmentos), deus está em todos os lugares e estamos o vendo em tudo a todo o momento, seria essa uma forma de incapacidade de entender a metafísica ou uma solução quanto a mesma, com o deus encarnado em tudo, fazendo parte de sua criação de modo que o mesmo se encarna em todos os aspectos da mesma?
Mas por qual motivo deus é tão cultural? Por qual razão o encontramos metafisicamente em determinada cultura e fisicamente em outra? Por qual razão ele é o deus restritivo e severo em uma religião e um deus de amor e redenção na mesma vertente? Então vamos examinar o conceito de deus em si dentro da filosofia de Feuerbach em sua obra “Essência do Cristianismo” e tentar chegar filosoficamente a algumas respostas.
A essência divina muda conforme a cultura em que deus é inserido, deus é um ato cultural, seria deus o criador de seu povo, ou seria o povo criador de seu deus? Segundo Feuerbach, a essência de deus é reflexo da própria essência humana. O que o homem tem de melhor de si, foi projetado em seu deus, o que melhor o homem tem na cultura cristã é seu amor, logo o deus cristão é puramente amor. Esse espelho da própria razão e qualidades humanas moldou cada deus conforme a própria necessidade humana, por exemplo, a Cidade-estado de Esparta em plenos tempos do império grego. Sabemos que a cultura espartana foi baseada completamente na cultura do combate, do culto a guerra, Esparta seria o braço forte da Grécia se os estados fossem unificados, um bom exemplo da força Espartana é dado na “Batalha das Termópilas” em 480 a.C, onde os espartanos com aproximadamente 300 espartanos, 700 téspios e 400 tebanos, protegeu durante sete dias inteiros o desfiladeiro de Termópilas contra diversas investidas Persas, por basear-se na força de combate acima de qualquer outro estudo (Esparta nunca desenvolveu uma tradição filosófica como as demais cidades-estado da colônia helênica), o deus cultuado, adorado e seguido foi Ares, um dos filhos de Zeus e uma perfeita inspiração e reflexo do guerreiro perfeito, nada mais é a figura de Ares do que então uma personificação do sentimento espartano de superioridade a parti da força de seus guerreiros, ou seja, uma imagem refletida e ampliada de certo contexto de modo a inspirar esse contexto em específico, já na capital ateniense, temos o culto a deusa Atena, deusa da sabedoria e em algumas tradições, dos aspectos justos da guerra, Atenas foi um pólo do pensamento Grego, logo, sua deusa mór é baseada nesses aspectos. No Norte europeu podemos notar melhor essa essência humana projetada no divino em sua filosofia, os povos Vikings dos países gelados moldaram toda sua religião a partir das batalhas, a honra para eles é a de se morrer em batalha para chegar a Valhalla, onde se está próximo aos deuses guerreiros e sua eternidade vai ser comemorar e lutar ao lado dos demais grandes guerreiros que mereceram a imortalidade por demonstrar bravura em vida.
Deus é então essa projeção da essência de um coletivo em uma figura específica. Deus não é ruim, se existe algo de errado com Deus, existe então algo de errado com sua humanidade. Se o deus cristão é todo um infinito de amor, é sinal de que o amor é o melhor que a humanidade tem a oferecer. Temos ai então um possível problema... Se deus é a perfeição da palavra humanidade, seria uma blasfêmia pensar em ser o melhor possível para um ser ser humano? Digo então que em qualquer que seja o dogma ou religião, a blasfêmia mora no pensamento de que a perfeição é apenas possível na figura divina e que o papel do ser humano é justamente o de ser imperfeito usando como desculpa moral o dogma de que é blasfemar desejar ser perfeito como deus. Deus é parte da própria qualidade humana, então o humano tem um pedaço de deus dentro de si e enquanto acreditar em sua própria essência divina haverá a capacidade de ser seu próprio deus e viver dentro daquilo que tem de melhor de si, independente deste ou daquele dogma que estabelece que vivendo deste ou daquele modo vá se ganhar esta ou aquela recompensa divina, pois a recompensa divina vai ser seu próprio sentimento recompensado independente de influências externas.

Bibliografia. 
essência do cristianismo / Ludwig Feuerbach; tradução e notas de Jose da Silva Brandão  Petropolis, RJ : Vozes, 2007

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