terça-feira, 3 de novembro de 2015

Tudo é jazz.


É isso.
Os remédios não funcionam.
A bebida nunca funcionou
e os cigarros acabaram.

Aqui do quarto andar seus problemas parecem menores, mais indolores, é só cortar uma cordinha, uma quedinha, alguns ossos quebrados e pronto. Silêncio. O som de choro, essa é a vizinha de cima, meus problemas só não parecem menores que os do vizinho de cima que bate em sua esposa quando quer descontar sua própria lamúria, ou o outro vizinho, o que toca sax as oito da manhã, esse sabe viver, acorda cedo sonhando com o dia em que vai passar todas as noites em claro, tão bêbado e drogado que não vai lembrar de quem é a cabeleira em seu travesseiro ao acordar. Esse é o Jazz.

Eu só bebo as vezes.

Por falar em vizinhos, moro em frente a mais três prédios, todos com as janelas viradas para dentro, todo mundo compartilhando sua intimidade em sua janela. Eu venho para a janela para escrever, tem quem venha transar, tem quem só vem a janela para as incessantes faxinas que sempre ocorrem antes de se acender a luz vermelha. E tem aquela galera da igreja, que vem rezar todos os finais de semana por todas as nossas almas, com seus aparelhos de som que podem ser ouvidos claramente da minha cama ou da cama da minha mãe, ou da cama da minha avó, ou da cama da puta que nos pariu.

O sangue de Jesus tem poder. Pois venha logo, leve todo mundo para o paraíso e nos deixe aqui de boas. Esse é o céu. No meio da nossa sujeira. Nossa, muito nossa.

Mas tudo isso é segredo. Ninguém precisa saber que eu venho para a janela para chorar quando não há ninguém em casa.

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